
Quando conclui a leitura do livro “Terra Americana” referi aqui que iria tentar perceber um pouco melhor a polémica em que o livro está envolvido nos EUA.
Já sabia as linhas gerais da polémica e sabia também que no epicentro da questão estava o sucesso do livro e a sua por parte de Oprah Winfrey para o seu clube de leitura. Oprah foi criticada e pressionada a reconsiderar a sua escolha, mas não o fez. Decidiu em vez disso organizar um debate com a participação da autora do livro e algumas das suas principais críticas.
Não consegui ver o debate, mas consegui encontrar algumas notícias que dissecaram o que aconteceu e, na minha opinião há uma frase de Oprah que resume bem a situação:
“Am I going to have to spend the next two months defending the writer … or can we actually talk about the story?
I’m not going to play it safer, but I’m not going to wade into water if I don’t have to … This has taken up a lot of my energy, a lot of [Cummins’s] energy, and it’s taken the attention away from the real reason I want people to read books.”
Ou seja, a questão não é o livro, o tema do livro e menos aqui a qualidade de escrita e do enredo. A questão é muito mais funda, tem a ver com discriminação, diferenças de oportunidades e escolhas. Ou seja, aquilo que me é dado a entender é que a polémica é mais em volta do facto de estarmos perante um livro escrito por alguém que, supostamente, não conhece a realidade da qual fala, criando por isso estereótipos em relação ao México e aos mexicanos, quando existem muitos outros autores dessa comunidade a quem não é dado o mesmo reconhecimento e oportunidade.
Não tenho informação suficiente para poder dizer taxativamente se os críticos têm razão em relação ao tema das oportunidades e alegada discriminação, e, para avaliar o livro em causa, confesso que é algo que não vou considerar. O livro existe, é uma história de ficção baseada numa investigação e é um bom livro. O resto pode ser tema, mas é extra livro. Fazer do livro um bode expiatório não me parece correto, mesmo quando existe numa final uma nota da autora que em alguns pontos é menos feliz, quando tenta justificar-se ou colocar-se nos sapatos dos migrantes mexicanos de forma menos conseguida.
O livro deve ser lido e analisado por aquilo que vale e não deve ser considerado em virtude de outros interesses.
Eu não li o livro, mas um livro que determinado grupo retratado diz que reforça estereótipos de minorias, por uma autora que vai fazer as unhas com decoração de arame farpado (como no livro) e uma editora que usa arame farpado na decoração de mesas, faz-me questionar o que exactamente irei encontrar nesse livro que seja relevante.
ResponderEliminarSe o cerne/objectivo do livro é revelar/evidenciar a experiência de ser emigrante, uma autora sem essa experiência e com comportamentos que revelam não ter um mínimo de empatia, poderá transmiti-la convenientemente?
Eu cheguei à conclusão que não e simplesmente optei por não incluir esse livro numa TBR já muuuuuito longa.
Compreendo a sua perspetiva Cristina.
EliminarHouve coisas que eu apenas fiquei a saber depois de ler o livro. Algumas ações da autora e da editora foram excessivas, ou até de mau gosto (a própria o assume, não sei se honestamente, se para ficar bem na fotografia), mas o livro continua a existir enquanto obra literária e acho que merece ser lida. Tentei ler o livro sem considerar a polémica que o envolve exatamente para (tentar) não ser afetado por ela. Fui levado pela curiosidade.
Sei que pode ser uma má comparação, mas é tentar ouvir uma música de Rolling Stones, esquecendo os excesso de Mick Jagger e Keith Richards.
Gostei! Um pormenor: parágrafo 6, descriminação ou discriminação? Vou continuar leitor.
ResponderEliminarObrigado. Considerando o contexto, discriminação, naturalmente. Alterado.
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