segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Que país poderíamos ser se lêssemos alguma coisa?

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Antes de mais, sinto necessidade de referir que a reflexão aqui apresentada carece de sustentação factual, pelo menos sustentação científica de facto. É um mero exercício de extrapolação da realidade e, no fundo, um desejo profundo e utópico.


A motivação para estas palavras adveio de um período não superior a uma hora e meia, do fim de semana que passou, período esse que compreendeu a deslocação da minha casa até ao supermercado, a realização de compras para a semana, e o regresso a casa. Durante este período, contei, por alto, 10 momento da mais elevada falta de civismo, falta de noção das regras básicas de convivência social, e no fundo de pura estupidez.


Não vou aqui enumerar todas as situações, mas estou a certo que quem me lê desse lado já teve oportunidade de observar algumas das que enumero de seguida: alguém que para um carro a ocupar metade da passadeira no parque de estacionamento do supermercado e, quando alguém o chama a atenção, ainda responde “Então, não cabe no resto da passadeira?”; alguém que implica porque o dispositivo de pagamento onde tem de passar o cartão não está bem desinfetado, enquanto mantém o nariz fora da máscara; alguém que mesmo na era pré-Covid estaria muito perto na fila do supermercado (aquelas pessoas cheias de pressa que ficam encostadas a respirar no nosso pescoço) e quando a outra pessoa alerta para esse facto acha por bem insurgir-se e dizer “Não tenho Covid”; e podia continuar por ai a diante...


O que é que tudo isto tem a ver com os livros? Bem, tem a ver primeiro com as pessoas dos livros e depois com os livros. Já aqui escrevi várias vezes que penso existir de facto uma diferença entre as pessoas dos livros e as outras. Por regra, são seres humanos, coisas que as outras muitas vezes não são. Era capaz de apostar que nenhuma das pessoas que esteve associada às 10 situações que referi acima seria uma pessoa dos livros.


Os livros não são nenhum medicamento milagroso que transforma pedras em pessoas, mas dá-lhes qualquer coisa que preenche um espaço que normalmente está ocupado por ignorância, e muitas vezes por estupidez. Quem lê tem claramente muito mais probabilidades de ser tolerante, de entender que vive em sociedade e não isoladamente num mundo onde só o “Eu” interessa.


Por tudo isto, dei por mim a pensar que país poderíamos ser se este povo lesse, se 70, 80% da população alfabetizada lesse alguma coisa, que ajudasse a transformar alfabetização em literacia, em conhecimento, em informação, ou simplesmente em horizontes mais alargados. A sério, pergunto-me se não seríamos um país melhor, de melhor gente. A falta de livros não é alheia a tudo o que vamos vendo por aí, seja no trânsito, no supermercado ou nas redes sociais.


Não havendo respostas concretas para já, fica a pergunta: que país poderíamos ser se lêssemos alguma coisa, e o desejo de um dia ainda poder ver alguma luz ao fundo do túnel.

13 comentários:

  1. Devo de ser muito parva, porque emocionei-me a ler este texto.
    Até tenho medo de ser arrogante ou snob, ao dar-te toda a razão deste mundo e do outro.
    Sou uma pessoa de livros quase à 50 anos,(é verdade, comecei muito cedo 🤓) e nunca tinha analisado a coisa por esse prisma, mas é verdade, é real o que aqui expuseste.
    Pudesse este texto ser lido por muuuuuuitos, podia ser que alguns ainda se salvassem.

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    1. Muito obrigado pelo elogio!
      Não tenho muita esperança, mas ainda tenho alguma... talvez com os mais novos, mas mesmo ai os sinais não são bons... se ajudar a salvar uma alma já me dou por contente! :)
      Boas leituras!

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  2. Dás-me licença para fazer um link para o teu blog?

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  3. Espectacular!
    Não retiro uma vírgula a este texto e concordo completamente com tudo, até (infelizmente) com a utopia do desejo....
    Mantenhamos a esperança de que ler se torne um hábito e que isso ajude a alterar alguns comportamentos menos sociais, ou pelo menos a fazer as pessoas «pensar» antes de os ter.

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  4. Faço-me tantas vezes essa pergunta!
    Soube por um livreiro do meu bairro que mensalmente saem para o mercado cerca de 400 novos títulos (antes da pandemia). Pasmei! Que títulos são esses? Não, não são literatura. Dietas, receitas, romances de cordel e auto-ajuda! Vendem, sim. Mas literatura cognitivamente dá trabalho. Claro que é um prazer, mas para poucos. Até porque porque "a rede" dá toda a (des)informação! Não sei se posso traçar uma relação de causalidade entre este fenómeno, da internet, e outro que o escritor Richard Zimler referia numa entrevista recente: há um certo orgulho na ignorância que antes não existia.
    Subscrevo totalmente a sua reflexão. Ler não resolve todos os problemas, mas expande a capacidade de pensamento crítico, a tolerância e a empatia.
    Infelizmente é um fenómeno que se estende igualmente à academia... mas nem vale a pena ir por aí.

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    1. Obrigado pelo seu comentário.
      Não sei se existe orgulho na ignorância (é possível que exista de facto), mas existe pelo menos uma despreocupação em relação a ela, o que, em termos de efeitos práticos, vai dar ao mesmo.
      Boas leituras!

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  5. Na minha opinião para os livros nos tornarem mais empáticos e mais conscientes do mundo ao nosso redor, acho que faz diferença o que se lê: muitas pessoas lêem apenas por escape e entretenimento - é uma posição válida e se a pessoa se coloca no lugar das personagens então esses livros podem ajudá-la no campo da empatia, mas possivelmente não ajudam muito a aumentar o conhecimento do mundo...Ler para além do que nos é oferecido nos escaparates dá trabalho. Pessoalmente sinto que o meu universo se tem expandido muito desde que comecei a ler mais diversamente, mas exige pesquisa e esforço e nem toda a gente terá as condições ou sequer quererá empreender esse esforço. E algumas coisas são simplesmente lixo: se é para ler as cinquentas sombras ou livros do Gustavo Santos mas vale estar quieto...Também é preciso ter essa vontade: há muita gente por aí que lê imenso (e bons livros), mas escrevem coisas chocantes de tão misóginas, homofóbicas, etc...E pessoas que mesmo tendo lido livros sobre racismo, em vez de aprenderem alguma coisa ficaram ofendidas. O cinema é paradigmático disto: quantas "obras de arte" foram realizadas por pessoas que eram (e são) um lixo...Era suposto que elas tivessem outra sensibilidade. O crescimento do fascismo também se regista em países onde se lê muito, por isso infelizmente a questão é complexa. Mas sim, se houvesse uma maior consciencialização para a importância da leitura e mais pessoas lessem, algumas coisas seriam certamente melhores.

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    1. Obrigado pelo seu comentário.
      No geral estou de acordo com o que diz, em particular quando refere que a questão é complexa e que, certamente, os livros não são um comprimido milagroso.
      É verdade que é preciso mais do que ler livros, é preciso uma estrutura mental para processar ideias, tentar distinguir o certo do errado, perceber a diferença entre opiniões e factos, e isso certamente não se ganha com certo tipo de litreratura conforme refere.
      Os livros fáceis são um fenómeno que prolifera à boleia de todo o mundo fácil, que tem a sua maior expressão no "passar o dedo" nas redes sociais do telemóvel.
      Não há muita esperança...
      Boas leituras!

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  6. Gostaria que assim fosse, mas sou muito céptica. Temos tantos exemplos de gente letrada e que lê muita literatura e está muito a par do que acontece no campo da Arte e que é um horror! Às vezes até são mesmo ignorantes. Estranhamente ignorantes.
    Acho que me revejo bastante no comentário da Sara.
    Quem nos dera que a literatura conseguisse fazer as pessoas melhores. Acho que sim, que tem algum papel, mas tudo é relativo. Boa semana.

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    1. Compreendo e concordo com o que refere, mas penso que alargaríamos as possibilidades de ter menos ignorantes. O que me custa nos dias que correm é ver que aumentam todos os dias.
      Boas semana e boas leituras!

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    2. Pois, há coisas incompreensíveis.

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