
Na sequência da minha publicação da semana passada sobre o livro “Caste – The Lies that Divide Us” de Isabel Wilkerson, um leitor enviou-me um email onde registava que o livro é para ser lido apenas numa perspetiva americana do tema, não se pode generalizar. Não concordei, respondi de uma forma breve e educada, mas hoje gostaria de refletir um pouco mais sobre o tema.
Pese embora o livro se centre de facto na realidade dos EUA, a verdade é a autora enquadra e contextualizado as suas ideias, comprovando as mesmas com a realidade da Índia e também com a subjugação dos judeus pela Alemanha nazi. Esta contextualização diz-nos que o problema não é americano, antes pelo contrário, e, no limite que é perigoso não percebermos que pode ser um problema global, ainda que mais ou menos exacerbado.
A ideia de castas, mais vincada menos vincada, subtil ou mais marcada, existe. Pode ser estabelecida com base na raça ou não. É a ideia de que existem seres humanos que são inferiores a outros e que por isso podem ser abusados, subjugados, ou simplesmente diminuídos.
Um exemplo prático que aconteceu próximo de mim: há uns anos atrás, num local onde trabalhei, alegadamente desapareceu um relógio de um colega do seu módulo de gavetas. O individuo em causa, que havia deixado o módulo de gavetas sem estar fechado à chave, começou a reclamar alto e bom som o alegado roubo, direcionando imediatamente a culpa para as empregadas de limpeza, perante a concordância de mais alguns elementos.
Poderão estar a pensar que se trata de uma questão de discriminação racial, porque efetivamente as senhoras da limpeza eram todas negras, no entanto, o individuo em causa não sabia disso porque entrava todos os dias às 12horas e nunca se tinhas cruzado com elas. O que aconteceu foi uma assunção direta de que só podia ter sido alguém que não fosse “um semelhante”, se quisermos alguém de uma casta inferior, “esse tipo de gente” como o próprio mencionou, acrescentando algo do género “os meus pais tem imensos problemas com essa gente”.
O que está em causa na situação acima é uma questão, à sua maneira, de castas, uma ideia de que há pessoas, pelas suas caraterísticas, proveniência, status social, que são inferiores a outras, e que por isso tem uma condição diferente e menor.
Não quero exagerar na dimensão da questão e sei que não é comparável, mas se fizermos um exercício de análise, acho que quase todos conseguimos encontrar focos onde a realidade referida no livro de manifesta. Em Portugal, diz-se que somos um país de brandos costumes, mas não somos imunes a esta realidade, com raça pelo meio, ou não. E acho que é importante que não nos esqueçamos disso. Somos todos pessoas, iguais, e não é o dinheiro, a raça, ou a posição social que altera isso.
Uma última nota para referir o seguinte: sei que por vezes passam por este espaço pessoas ligadas a várias editoras, pelo que deixo aqui o repto para considerarem este livro para tradução para português. Acho que é uma obra de grande valor e que devia ser dada a conhecer ao público português.
Também conto ler este livro e o que tens escrito sobre ele só me deixou mais interessado. Quanto à relevância do tema na realidade portuguesa, acrescento ao que já disseste este triste dado estatístico de um estudo recente: 23% dos portugueses acham que existem raças ou etnias que por natureza são mais inteligentes que outras. Se dúvidas houvesse que achar que existem seres humanos inferiores é também um problema por estas bandas... (https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2503/html/primeiro-caderno/sociedade/ha-racas-mais-inteligentes--23-acreditam-que-sim).
ResponderEliminarObrigado pela nota. Nos EUA há duas questões que acabam por marcar muito aquela realidade, a escravautura e segreagação racial como regra até muito tarde e... armas com fartura.
EliminarMas sim, não é um probleam só de alguns e nós também não somos exceção.
Boas leituras!
Sim, o problema é global e não é de hoje. Tem implicações políticas, sociais, psicológicas e económicas
ResponderEliminarDurante o regime colonial-fascista,por exemplo, os colonos/retornados julgavam-se superiores aos povos colonizados em África.
A Pulitzer prize winner draws parallels between America, India and Nazi Germany in her unsettling history of racial hierarchies : In the late 1960s, in response to the assassination of Martin Luther King and the subsequent social unrest, a white school teacher in the farm town of Riceville, Iowa, undertook a now famous experiment on her all-white class of third graders.
She separated the blue-eyed kids from those with brown eyes, telling them that the brown-eyed kids were not as good as the blue-eyed kids; that they were slower, not as smart, would not be allowed to drink from the water fountain and could not play with the blue-eyed ones. She wanted them, like so many African American children, to experience, if only for a moment, prejudice based on an arbitrary physical trait.
É uma leitura que permite ver o problema por um ângulo diferente e mais alargado. Recomendo.
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