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Viver é, não só, mas também, ser capaz de continuar apesar de estarmos inevitavelmente destinados à perda. Não sei se é por isso, ou só por isso, mas interessam-me livros que explicam como se gere este processo, como se encara, como se continua ou persiste apesar dessa dor.
Pode ser a perda da vida que sonhámos, a perda de um amigo, a perda do pai, da mãe ou de um irmão. A perda da pessoa amada. O que nos leva a continuar e como avançamos com esse sofrimento sempre dentro de nós.
A perda de um filho, aquela com a qual não consigo conjeturar a possibilidade de continuação é, para mim – esperando que assim seja até ao último dos meus dias – o maior dos enigmas.
Talvez por essa razão, quando vi o título e li as primeiras páginas deste livro, de pé, numa FNAC, me tenha parecido que não poderia abandonar a livraria sem o levar comigo.
Entretanto, já em casa, fui deixando que marinasse na prateleira enquanto ganhava coragem para ler o que tinha para me contar.
Ficou assim, em espera, por mais de um ano. Fui, deliberadamente, deixando que outros lhe passassem à frente.
Mas há um mês (mais coisa menos coisa), quando acabei de ler Tudo na natureza apenas continua, de Yiyun Li, pensei para comigo que tinha de encerrar o tema e ler também este O pai da menina morta.
Sabia que seria diferente na forma e na perspetiva apresentada. Quando um (de Yiyun Li) mostra lucidez, clareza, pensamento racional, uma forma palpável e sem subterfúgios de continuar, o segundo (de Tiago Ferro), mostra o exato aposto. O caos que fica, as dúvidas contantes, o pensamento errático, a falta de lucidez.
Escrito em anotações soltas e apontamentos desconexos, parece-me tentar transparecer não só no texto escrito, mas também na forma, a desorganização que deixa tal perda.
Em comum têm apenas a perda mais indizível de uma vida e a constatação exatamente igual de que os outros fogem de pais que perdem filhos, como se essa desgraça fosse contagiosa.
Dito isto, apreciei o livro, mas, francamente, poderia ter sido mais curto. Pareceu-me que a determinada altura o livro andava às voltas e já se estava a repetir na mesma ideia que ficou clara nas primeiras páginas: que não há como acertar, um pai que perde um filho não tem como ganhar, se está bem é porque é mau pai, se está mal é porque nunca vai recuperar e é só uma questão de tempo para que acabe com a sua vida.
O discurso errático impediu-me, em vários momentos, de compreender exatamente a mensagem do autor porque não consegui entender com o que é que determinado assunto se relacionava com aquele momento.
Dito isto, fico satisfeita por ter lido ambos os livros quase de seguida, já que depois da tragédia, todos os desfechos são viáveis, sejam estes mais lúcidos ou menos.

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