domingo, 19 de fevereiro de 2023

Poemas de Livros

Cópia de MINISTÉRIO dos LIVROS (80).png


O Homem que Lê


Eu lia há muito. Desde que esta tarde


com o seu ruído de chuva chegou às janelas.


Abstraí-me do vento lá fora:


o meu livro era difícil.


Olhei as suas páginas como rostos


que se ensombram pela profunda reflexão


e em redor da minha leitura parava o tempo. —


De repente sobre as páginas lançou-se uma luz


e em vez da tímida confusão de palavras


estava: tarde, tarde... em todas elas.


Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já


as longas linhas, e as palavras rolam


dos seus fios, para onde elas querem.


Então sei: sobre os jardins


transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;


o sol deve ter surgido de novo. —


E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:


o que está disperso ordena-se em poucos grupos,


obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas


e estranhamente longe, como se significasse algo mais,


ouve-se o pouco que ainda acontece.


E quando agora levantar os olhos deste livro,


nada será estranho, tudo grande.


Aí fora existe o que vivo dentro de mim


e aqui e mais além nada tem fronteiras;


apenas me entreteço mais ainda com ele


quando o meu olhar se adapta às coisas


e à grave simplicidade das multidões, —


então a terra cresce acima de si mesma.


E parece que abarca todo o céu:


a primeira estrela é como a última casa.


 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"

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