domingo, 25 de junho de 2023

Poemas de Livros

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Poema dos Dons


Ninguém rebaixe a lágrima ou censura


Esta declaração da maestria


De Deus, que com magnífica ironia


Me deu mil livros e uma noite escura.


 


Desta terra de livros fez senhores


A olhos sem luz, que apenas se concedem


Sonhar com bibliotecas e com cores


De insensatos parágrafos que cedem


 


As manhãs ao seu fim. Em vão o dia


Lhes oferta seus livros infinitos,


Árduos como esses árduos manuscritos


Que pereceram em Alexandria.


 


De fome e sede (narra a história grega)


Morre um rei entre fontes e jardins;


Eu erro sem cessar pelos confins


Dessa alta e funda biblioteca cega.


 


Enciclopédias, atlas, o Oriente


E o Ocidente, eras, dinastias,


Símbolos, cosmos e cosmogonias


Brindam os muros, mas inutilmente.


 


Lento nas sombras, a penumbra e o nada


Exploro com o báculo indeciso,


Eu, que me figurava o Paraíso


Como uma biblioteca refinada.


 


Algo, que nomear ninguém se atreva


Com a palavra acaso, arma os eventos;


Outro já recebeu noutros cinzentos


Ocasos os mil livros e esta treva.


 


Ao errar pelas lentas galerias


Chego a sentir com vago horror sagrado


Que sou o outro, o morto, tendo dado


Os mesmos passos pelos mesmos dias.


 


Qual de nós dois escreve este poema


De um eu plural e de uma mesma mente?


Que importa o verbo que me faz presente


Se é uno e indivisível o dilema?


 


Groussac ou Borges, olho este querido


Mundo que se deforma e que se apaga


Em uma pálida poeira vaga


Que se parece ao sonho e ao olvido.


 


De Jorge Luis Borges

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