
O post de hoje é diferente. Em 5 anos de Ministério dos Livros nunca um post me deixou tão orgulhoso.
Hoje, aqui no Ministério, temos um Conto de Natal de uma autora duplamente convidada. Convidada no blog e muito antes disso convidada para a minha vida há mais de 15 anos.
Sei que qualquer coisa elogiosa que escreva sobre a minha companheira de vida vai soar a suspeito, mas não posso deixar de o fazer, porque é justo e merecido.
Entre todas as coisas boas que tem, e que são muitas, escrever é também uma delas. Já aqui escrevi em várias ocasiões que os livros e a escrita sempre foram algo que nos uniu e continua a unir. Os livros também são cola para o amor. E neste caso tem sido uma cola muito boa.
Dito isto, aqui fica um pequeno presente de Natal pela mão da mulher que fez e faz de mim uma pessoa melhor todos os dias. Não acredito no destino, mas se acreditasse diria que no meu estava escrito o nome dela.
Depois de lerem o conto convido-vos a visitar os dois espaços da autora:
O blog https://exerciciodeescrita.blogs.sapo.pt/ onde podem subscrever a newsletter Audioterapia e a conta de Instagram https://www.instagram.com/catia.madeira/ com um conteúdo muito mais variado, entre o sério e o divertido, onde muitas vezes o autor desde blog também é visado.
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"Os livros são amigos de papel"
Feliz natal, Joaquim. A minha filha vem buscar-me e tem um carro novo todo moderno. Quem lhe dizia isto era a vizinha Alzira, parceira de muro há mais de quarenta anos. As moradias pequenas, térreas, de aspeto rústico tinham sido construídas em simultâneo, desde então faziam parte da vida um do outro. Alzira vira Carlos – o filho de Joaquim – crescer, e o mesmo acontecera com Joaquim, que vira os filhos de Alzira passarem de petizes a gente feita, também eles já com filhos e rugas nos cantos dos olhos. Alzira enviuvara primeiro. Arranjava companhia para o dia-a-dia na cadelinha bichon que trazia sempre consigo, na televisão sempre ligada e no grupo de amigas, que todos os anos minguava.
Alzira levava o cabelo armado à força de três frascos de laca despejados na cabeça. Levava o casaco de pele de coelho que o marido lhe havia oferecido há mais de vinte anos. Levava – ou assim parecia a Joaquim – todo o ouro que possuía. Debaixo do braço estava Lolita, a bichon agressiva que fazia as maravilhas de Alzira.
Alzira ia perguntar-lhe se Carlos vinha passar o Natal, mas já não foi a tempo, porque Joaquim foi andando enquanto Alzira falava, talvez porque soubesse que ela precisava sempre de tempo para falar de si, talvez porque adivinhasse a chegada daquela pergunta à qual não lhe apetecia responder.
Carlos tinha emigrado para a Escócia há mais de dez anos. Esperara demasiado por uma oportunidade neste nosso Portugal e quando as portas se foram fechando apareceu a hipótese de rumar ao estrangeiro. Doeu-lhe deixar os pais para trás, mas a vida é assim, faz-se para a frente e hoje em dia, com telemóveis e chamadas de vídeo à distância, sempre podiam fazer de conta que estavam mais perto. Um ecrã não substitui o calor de um abraço, mas ver o rosto de quem se ama mais do que uma vez por semana já é algo pelo qual se sentiam gratos. Carlos acabou por conhecer uma francesa por lá emigrada, casaram e tiveram uma menina, Anna. Um nome que se diz bem em qualquer língua, com dois enes para que se saiba que é estrangeiro.
Carlos tentara convencer o pai a ir para a Escócia. Os preços dos bilhetes estavam uma loucura, era impensável que viessem os três para Portugal, mas para pagar um só bilhete qualquer coisa se arranjava e, nem que dividissem o custo entre todos, Joaquim não passaria a consoada sozinho. Passaria por lá umas semanas, aproveitaria para estar com a neta e regressaria a Portugal no início de janeiro. Mas Joaquim não gostava de se impor, de ocupar espaço, de mexer com a dinâmica de vida do filho.
Eu fico bem, Carlos. Descansa, rapaz. Vou passar a noite aqui com uns amigos que fiz, disse Joaquim ao filho. Carlos quis saber que amigos eram aqueles, como se chamavam, se ele já os havia conhecido em alguma ocasião.
São amigos da biblioteca, sabes que passo lá muito tempo. Não sei se os conheces, é malta mais ou menos para as minhas idades, um tanto ou quanto mais velhos. Mas gente boa, explicou Joaquim.
Então e eles não têm família?, quis saber Carlos. Joaquim alegou que era tudo gente que estava mais ou menos como ele ou coisa parecida. Insistiu que estava contente de ter aqueles amigos e entretanto ouviu Anna chamar pelo pai e soube que a chamada duraria pouco.
Não voltaram a falar no assunto.
Na noite de consoada falaram-se por Skype. Anna corria de um lado para o outro, Carlos quis esperar para conhecer os amigos do pai. Joaquim disse que ainda haviam de demorar, gente velha anda devagar e já não precisa de ter pressa para chegar a parte alguma. Desligaram com os olhos em lágrimas. O abraço que faltava.
Joaquim pôs a mesa para quatro. Preparou bacalhau para um. Em cima das três cadeiras vagas pôs pilhas de livros. À frente de cada prato um papel dobrado que indicava o lugar de cada convidado: Joaquim, Tolstoi, Saramago, Maria Judite de Carvalho. Ao lado do seu prato estavam cartões com dizeres copiados à mão. As passagens de cada um daqueles livros que Lídia, a sua amada esposa e mãe de Carlos, havia assinalado cuidadosamente. Joaquim iria ler cada uma das passagens, num teatro de faz de conta, onde os livros e quem os escrevera conversariam consigo. Riu com algumas passagens, conteve as lágrimas com outras. Abanava a cabeça, a sensibilidade da sua Lídia. Dizia-lhe tanta vez: os livros são amigos de papel, cheios de páginas, capazes de atenuar a solidão e amiudar a dor. Tinha razão como sempre. Por isso Joaquim aceitara tomar para si o vício de Lídia: o vício dos livros. Passavam tardes a ler. Lídia pedia para ir à biblioteca e foi para lá que Joaquim se habitou a ir depois de lhe dizer adeus. As pernas pareciam fazer o caminho sozinhas.
A certa altura Joaquim pensou em ligar a televisão, não para ver um programa, mas para ocupar o lugar do silêncio que se tornava pesado. Indagou o que acharia cada um dos seus convidados. O russo diria qualquer coisa na sua língua arrastada que ninguém entenderia; Saramago acharia mal, porque contemplar o silêncio também tem beleza; Maria Judite acharia que daquele momento sairia um conto maravilhoso.
Terminou de comer o bacalhau e despediu-se dos seus companheiros. Sentou-se na poltrona, pousou nas pernas a manta que Lídia usava para se aconchegar, abriu o último livro que Lídia lhe havia recomendado: Morreste-me, de José Luís Peixoto. Pareceu-lhe que em cada frase aquele rapaz sabia o que ele sentia.
Terminou o livro, fechou-o e passou-lhe a mão pela capa como quem afaga um amigo querido. Esta minha Lídia, disse para consigo. E adormeceu.
Joaquim conteve as lágrimas, eu não...
ResponderEliminarObrigada por este maravilhoso conto.
Vai ser publicado no blog da Cátia? Para o juntar ao rol dos contos deste ano, gostaria de o fazer pelo blog dela . Isto supostamente, porque será para para esse efeito, certo?
Obrigado! Este é apenas para consumo interno!
EliminarBoas festas!
Obrigada pela partilha deste maravilhoso conto de Natal!
ResponderEliminarObrigado pelo comentário!
EliminarBoas Festas!
E boas leituras!
EliminarUm conto de Natal maravilhoso, Feliz Natal
ResponderEliminarMuito obrigado! Mérito da autora!
EliminarFeliz Natal!
Obrigada por esta maravilhosa partilha, não conhecia o blog da Cátia, dei um olhinho depois de ler o conto e já está também nos meus favoritos.
ResponderEliminarObrigada e um Feliz Natal!
Fico contente que tenha gostado!
EliminarFestas Felizes e boas leituras!