domingo, 6 de outubro de 2024

Poemas de Livros

22508680_ZvFs9.png


Biblioteca Verde


– Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.

São só 24 volumes encadernados em percalina verde.
– Meu filho, é livro demais para uma criança!…
– Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
– Quando crescer, eu compro. Agora não.
– Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra!…
– Fica quieto, menino, eu vou comprar.

 

– Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão, recuso. Já sabe:
Quero a devolução de meu dinheiro.
– Está bem, Coronel, ordens são ordens.
  
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,

fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.

Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde.

Sou o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção das Obras Célebres.

 

Tenho de ler tudo. Antes de ler,

que bom passar a mão no som da percalina,

esse cristal de fluida transparência: verde, verde…
Amanhã começo a ler. Agora não.

 

Agora quero ver figuras. Todas.

Templo de Tebas, Osíris, Medusa, Apolo nu, Vênus nua…

 



Nossa Senhora, tem disso nos livros?!…

Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino! Espermacete cai na cama, queima a perna, o sono.

Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca

antes que pegue fogo na casa.

 

Vai dormir, menino, antes que eu perca a paciência e te dê uma sova.

Dorme, filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.

 

Mas leio, leio… Em filosofias tropeço e caio,

cavalgo de novo meu verde livro,

em cavalarias me perco, medievo;

em contos, poemas me vejo viver.

 

Como te devoro, verde pastagem!…

Ou antes carruagem de fugir de mim

e me trazer de volta à casa

a qualquer hora num fechar de páginas?

 

Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei nunca,

está na Biblioteca em verde murmúrio

de flauta-percalina eternamente.

 


De Carlos Drummond de Andrade


Sem comentários:

Enviar um comentário